O comboio das 22h18
24 outubro 2026
O anúncio de uma massa de ar polar surgira com a solenidade habitual das previsões meteorológicas. Falava-se de uma descida acentuada das temperaturas, de uma frente fria a aproximar-se e de chuva durante a noite. Já deitado, oiço os aguaceiros a começarem a cair. O som da chuva a bater nos caleiros corria ao longo da rua como uma conversa entre telhados. Não era uma tempestade, apenas uma chuva persistente, daquelas que parece determinada a ficar até concluir o trabalho. Foi então que ouvi o comboio. Ao longe, chegou primeiro a buzina. Depois outra. A passagem junto ao apeadeiro da Aveleda anuncia-se sempre antes de se ver. Há meses que o oiço à mesma hora, por volta das 22h18, como um relógio ferroviário de pulso. Ele não consta na escala da CP, pelo que deverá circular vazio, recolhendo-se para algum local onde possa passar a noite. Nessa noite, porém, soou diferente. Naturalmente, o comboio era o mesmo. A linha era a mesma. Provavelmente até o maquinista seria o mesmo. Mas a imagin...