O verso da cidade
27 outubro 2026
O outono chegou sem grandes anúncios. Foi através de uma chuva noturna e discreta, como se viesse em segredo. Mas há manhãs em que o outono decide vestir-se de luz e esquecer a chuva. O ar sopra fresco, mais honesto no corpo, mas o sol brilha num tom baixo e luminoso que transforma qualquer travessia urbana num convite difícil de recusar. Ligo o motor da minha scooter e deixo-me ir ao ritmo suave da cidade. Entrar no centro de Braga a esta hora é como mergulhar num pulso bem medido. O túnel do Santos da Cunha, agora devolvido ao duplo sentido, tem quase a leveza inocente de um carrossel urbano — um curvar ligeiro mas rápido, em descida e em subida, onde o trânsito flui sem sobressaltos. Há uma harmonia que me contagia no movimento de hoje: nos semáforos, os carros acumulam-se em ordem sob a sombra densa das árvores, as pessoas cruzam as passadeiras a um ritmo cadenciado, e o frenesim do dia parece surpreendentemente simpático, coordenado por um maestro invisível. Ao chegar ao final da...