Os sinais de fumo do outono
5 outubro 2026
O calendário pode teimar a sua habitual burocracia, mas a verdade é que uma estação não se decreta por alinhamento astronómico. O outono sente-se. E, acima de tudo, o outono é uma questão de iluminação. Com o trânsito a abrandar o ritmo da cidade, o céu decidiu finalmente assumir a sua paleta de época. Por cima dos telhados e das silhuetas teimosamente escuras das árvores, as nuvens espessas incendiaram-se num laranja vibrante. É a famosa dispersão de Rayleigh em todo o seu esplendor prático: ao aproximar-se do horizonte, a luz do Sol atravessa uma camada mais espessa da atmosfera, onde os comprimentos de onda mais curtos são mais intensamente dispersos. O azul perde-se pelo caminho e os tons quentes acabam por dominar o céu, pintando o teto do mundo. Mas a física, por muito fascinante que seja, raramente nos aquece a alma da mesma forma que a poesia das ruas. Parei para observar. Aquele fogo brando no crepúsculo parecia feito para a nostalgia que tardava em assentar no asfalto. Se as ...