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A geografia das pequenas fugas

9 agosto 2026
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No sossego da casa de campo, o dia pedia silêncio quando a Paula me sobressaltou com um desejo simples: sair, mas sem ir para longe. Há quem precise de horas na estrada e de mapas dobrados em quatro para sentir que atravessou uma fronteira; ali a preferência pendia para a subtileza dos pequenos desvios. Eu já tinha na cabeça o itinerário para uma fuga de circunstância, daquelas em que o destino é apenas um pretexto para desacelerar o ritmo do mundo. Fizemo-nos à N201, rolando suavemente no asfalto apenas pelo tempo estritamente necessário para virar o corpo e a atenção. Em Romarigães, a primeira paragem impôs-se quase por respeito literário junto à Casa Grande. Ergueram-na no século XVII em torno da Capela de Nossa Senhora do Amparo e, durante gerações, o solar de arquitetura nobre e rural foi o coração da vida local. Mas foi a escrita de Aquilino Ribeiro, em 1957, que a imortalizou no romance homónimo, transformando o granito, os musgos e os jardins da Quinta do Amparo num território ...

O verde que exige silêncio

5 agosto 2026
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Há lugares que não anunciam a sua chegada com monumentos nem fronteiras. Anunciam-na com o ar. Entrámos nas Astúrias sob um calor quase sufocante. O verão fazia-se sentir, e nada fazia prever mudança. Até que, a meio de uma conversa sem importância, os números no painel do automóvel começaram a cair a pique: vinte e nove. Vinte e quatro. Dezoito. Quinze. Doze graus. A temperatura desceu como se alguém tivesse aberto uma porta para outra estação do ano. Foi o primeiro sinal de que esta terra tem regras próprias. A estrada insinuava-se entre o Mar Cantábrico e as montanhas. À esquerda, o oceano revelava-se por entre as encostas; à direita, as paredes verdes erguiam-se sem pedir licença. O verde era de uma intensidade rara, lembrando-me os Açores, mas sem a suavidade das ilhas. Aqui, tudo parecia mais abrupto, mais vertical, mais indomável. Deixei de participar na conversa dentro do carro. Há um momento em todas as viagens em que deixo de viajar com quem me acompanha e passo a viajar apen...

No hay choco (e outras ilusões a norte)

3 agosto 2026
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Há viagens que começam muito antes da primeira curva e alimentam-se de pequenas mitologias de estrada. A nossa começou com o Fernando, ao volante, a ditar a cartografia gastronómica da Península Ibérica. Do sul guardava a memória do prato; do norte, a promessa da abundância. Mas a entrada na Galiza fez-se sob o signo da resistência: ao cruzarmos a fronteira em Tui, o desejo firme de comer chocos chocou de frente com o ceticismo do destino. A catorze quilómetros da fronteira, a portagem d’O Porriño decidiu que a nossa passagem não seria tão simples. A Via Verde calou-se. Do outro lado do intercomunicador, uma voz feminina e intransigente recusava-se a ceder, enquanto o Fernando, virando-se para o habitáculo do carro entre o desespero e a comédia, decretava: “ No hay choco. Eles não nos querem aqui.” O cartão de crédito resolveu a burocracia, mas o tom da jornada estava dado. A AP-9 galega fez-se ao som de uma risada corrida, embalada pela ideia absurda de sermos clandestinos num país q...

A geometria do suspenso

1 agosto 2026
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Há um momento em que a urgência das coisas miúdas se esvazia, vencida pela escala da paisagem. Deixamos para trás o ritmo acelerado e os relógios que contam minutos sem importância para nos entregarmos à N101. À chegada a Mesão Frio, a porta de entrada no Alto Douro Vinhateiro abre-se não como um limite geográfico, mas como uma mudança de cadência na alma. Quando a N101 se cruza com a N108, o asfalto começa a serpentear por encostas rasgadas por carreiros perfeitos de vides. Descemos pela Ribeira da Rede até ao ponto em que a estrada casa com o Rio Douro, namorando-o colada à sua margem norte. O rio corre com uma elegância antiga, alheio à pressa do mundo. Numa destas encostas íngremes, a minha atenção tropeça num gesto de incultura ambiental: várias caixas plásticas de fruta, abandonadas em queda acentuada para a água. Arrisco o equilíbrio para as resgatar uma a uma antes que o rio as engula. Viajam connosco junto à bagagem; haverão de encontrar utilidade e descanso futuro na colheita...

Sabor, pedra e planalto

30 julho 2026
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A despedida do Douro em Barca d’Alva deu lugar a uma nova paisagem, mais seca, mais vasta e com a imponência que só o planalto interior oferece. A treze quilómetros de distância, numa jornada marcada por um ambiente quente de trovoada seca e nuvens esparsas, alcançamos Escalhão. A aldeia, que em tempos idos foi vila e sede de concelho, já se chamou Secalhão — um topónimo que não deixa margem para dúvidas sobre a aridez histórica desta região raiana. Curiosa esta povoação, estendida num planalto onde o horizonte se perde de vista e onde, à nossa passagem, não se vislumbrou vivalma nas ruas silenciosas. Mas a surpresa maior esperava-nos a oito quilómetros de Figueira de Castelo Rodrigo, ainda nos limites do Escalhão. De repente, a estrada nacional N221 transfigura-se numa artéria com perfil de avenida. Separador central arborizado, duas faixas de rodagem em cada sentido e, espante-se, semáforos funcionais. Um rasgo de urbanismo bizarro e inesperado numa pequena povoação do extremo interi...

Onde o vento faz a curva: o Douro Superior

28 julho 2026
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Podia debruçar-me sobre o desconforto desta semana que abriu tórrida e sem tréguas, mas a memória preferiu resgatar outra canícula. Uma travessia antiga, desenhada na extremidade mais a este do Alto Douro Vinhateiro, onde o mapa se rasga e a paisagem ganha a aspereza solene da raia. A entrada por Vila Nova de Foz Côa marcava o prelúdio de uma jornada em busca do Douro Superior. Sem a bolha climatizada do automóvel — esse filtro transparente entre o corpo e o mundo —, o dia teria sido uma prova física desmedida. Bastava encostar e abrir a porta para receber no rosto uma bofetada de ar sufocante, seco e denso, quase mineral. Cruzámos Foz Côa com a celeridade de quem anseia pela água e pelo vale, descendo até ao Pocinho para atravessar o rio sobre a espinha da sua barragem. Esse breve flirt do IP2 com o Douro devolve-nos o curso de água sob uma perspectiva distinta, numa cadência mais lenta e grave. A Foz do Sabor revela-se logo ali à curva, desaguando memórias antigas. O Sabor traz-me o...

O portão que a cidade esqueceu

25 julho 2026
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Há um momento em que a cidade deixa de ser um mapa de destinos e se transforma num inventário de sobressaltos. Acontece quase sempre sem aviso, ao ritmo de um cilindro e de um semáforo que decide demorar-se no vermelho. Subia a Avenida da Imaculada Conceição — essa artéria de Braga onde o trânsito flui com a urgência mecânica dos dias úteis — quando o olhar tropeçou num rasgo na paisagem. Ali, onde os carros passam alheados e o asfalto parece não ter memória, repousa uma carcaça industrial. Um esqueleto de betão e tijolo devorado pela hera, fustigado pelo tempo e esquecido pelos homens. Desliguei o motor. O contraste era quase estético na sua brutalidade: o portão de ferro, desarnado das dobradiças, jazia no chão como se tivesse sido derrubado por uma força invisível. Ao centro, a minha scooter vermelha brilhava sob a luz de julho, intacta e viva, como um pequeno objeto de cena pousado num cenário pós-apocalíptico. Parecia até, à primeira vista, ter sido ela a abalroar a fronteira ent...

O que o vermelho nos deixa ver

22 julho 2026
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Era só mais uma encarnação de estafeta familiar: levar o almoço de sábado a quem trabalha. Uma missão sem ditadura do tempo nem frenesi do relógio, que podia simplesmente ter-me levado por onde a maioria vai — pelo caminho mais curto, direto e funcional, sem devaneios no asfalto, pela variante da cidade. Mas o meu caminho é outro. É o centro da cidade, a cadência viva do trânsito e a pausa ritual diante do vermelho dos semáforos. Foi justamente num cruzamento na Avenida da Imaculada Conceição que o sinal me deteve. Enquanto a cidade de Braga aguardava, em ponto morto, o meu olhar desviou-se. E foi então que reparei naquela casa, como quem desce, lentamente, até ao fim da Rua de São Geraldo. Um solar antigo e silencioso, elevado sobre o muro de pedra, como se observasse a cidade a partir de outro século. As paredes caiadas de branco, emolduradas por cantarias de granito, o nicho devocional esculpido ao centro da fachada, as varandas de sacada e os vasos de barro alinhados no patamar com...

Um postal no WhatsApp

20 julho 2026
Há qualquer coisa de profundamente reconfortante na ideia de receber um postal. Não a correspondência formal, os avisos urgentes ou as faturas que se acumulam no móvel da entrada, mas aquele pedaço de papel ilustrado que alguém escolheu numa banca, escreveu à mão e confiou aos correios apenas para dizer: lembrei-me de ti ao passar por aqui . Na azáfama dos nossos dias, os ecrãs transformaram-se em avenidas barulhentas. Tudo corre, tudo se atropela, tudo exige atenção imediata num ecossistema dominado por algoritmos que decidem, à nossa revelia, o que devemos ver e sentir. O blogue nasceu precisamente como uma resistência a essa velocidade — um refúgio para parar, olhar a cidade com tempo e escutar o ritmo silencioso do caminho. Decidi abrir uma pequena janela nessa rotina. O Entre Curvas agora tem um canal no WhatsApp. Não para somar ao ruído quotidiano ou para encher o telemóvel do leitor de notificações apressadas, mas para funcionar como esse postal ilustrado. Um espaço tranquilo e...

O último olhar de cima

18 julho 2026
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Acordar antes do tempo é um compasso desalinhado. Quando a Paula se levantou cedo para terminar um trabalho, o meu corpo acompanhou-a, mas a mente trouxe o peso dos dias cheios: uma pressão subtil pela cabeça, uma dor leve, a névoa da fadiga. Ela insistiu para que eu ficasse a descansar, mas há manhãs em que a companhia é o único alimento de que precisamos. Mesmo que seja apenas… estar. Ao pequeno-almoço, o café forte foi o baluarte precário que me manteve vertical. Ao cruzar a porta, a rua recebeu-nos com uma neblina macia. Em movimento, a ver o mundo passar pela janela, aquela bruma transportou-me de imediato para os invernos antigos em Sintra. Dias em que o nevoeiro era denso, honesto, sem pudor de durar semanas, simplificando o mundo e apagando o ruído dos excessos. Ali, na cadência daquela hora madrugadora, ver o sol começar a dissipar a névoa transformou a paisagem urbana num plano etéreo, quase cinematográfico. O destino de hoje pode ter sido uma banalidade dos últimos tempos, m...

O crime perfeito de não fazer nada

17 julho 2026
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A manhã começou com uma carta de desculpas que era, na verdade, um sintoma do nosso tempo. Enfiado entre a crosta estaladiça dos pães que repousavam à porta, o bilhete do padeiro carregava uma delicadeza quase trágica: pedia perdão por ir de férias, lamentando antecipadamente o incómodo do seu silêncio. Sorri com uma ponta de ironia. Em que momento da história transformámos o direito ao descanso numa infração social? Que engrenagem invisível nos convenceu de que o ócio exige uma justificação por escrito? A urgência do padeiro em desculpar-se pelo próprio descanso foi o gatilho. Ali mesmo, antes do primeiro café fazer o seu trabalho, encomendei a Apologia do Ócio , de Robert Louis Stevenson. Um manifesto antigo para converter os obcecados pela produtividade e os gurus do lucro perpétuo. Afinal, eu próprio tinha tirado o dia de férias com um propósito firme e deliberado: abrandar. Montei-me na scooter com o espírito de quem executa um plano de fuga. Ao deslizar em direção ao centro de B...

A curva que nos leva a casa

14 julho 2026
Começou com uma scooter vermelha, o alcatrão de Braga e a vontade bonita de registar a cidade vista em duas rodas. Chamei-lhe A Minha Honda . Mas a escrita, tal como as viagens que valem a pena, tem o hábito maravilhoso de escolher os seus próprios desvios, de desacelerar onde menos se espera. Ao longo desta viagem, percebi que o que nos prende a estas linhas não é a marca que nela vem gravada. É o espaço misterioso que existe entre a esquina que deixamos para trás e a próxima ruela que se revela diante de nós. É o tempo que demoramos a parar, a olhar e a fotografar o mundo com palavras. É o que acontece, verdadeiramente, entre curvas . Por isso, o blogue cresceu. Ganhou maturidade e a necessidade natural de ter um teto inteiramente seu, independente e sem amarras. Um lugar onde possamos viajar de moto, a pé pelas pedras da cidade ou sob qualquer outra forma de liberdade que o futuro nos reserve. Muito brevemente, o meu caderno de sensações passa a morar de forma definitiva em: entrecu...

O ritmo invisível do tempo contado

12 julho 2026
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O despertador é um intruso mecânico. Abro os olhos, a luz de julho já se infiltra pelas frinchas da persiana, e sinto o corpo pesado, como se a gravidade de Braga se tivesse concentrado toda na minha cama. Há um cansaço físico que se apodera de nós sem pedir licença, uma quietude forçada que o corpo exige e que a mente tenta contrariar. Deixo-me ficar mais um minuto. Depois, num golpe de teatro doméstico, apanho a preguiça desprevenida e ergo-me antes que os músculos comecem a reclamar. Na cozinha, o ritual do café é o primeiro compasso do dia. O vapor que sobe da caneca funciona como uma promessa: lá fora, a estrada espera-me. A Honda Vision 110, silenciosa à entrada, é o convite perfeito para aquela cadência matinal, lenta e terapêutica, que costuma salvar os meus fins de semana. Mas o sábado trai as expectativas. O que devia ser um passeio contemplativo transforma-se, de repente, num tabuleiro de tarefas pendentes. Quando dou por mim, o relógio já assumiu o comando. O Largo da Senho...

40 graus à sombra do jazz

4 julho 2026
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Há semanas que não escrevia, pela simples razão de que as saídas de scooter escassearam, e são elas que alimentam a narrativa deste espaço. Quando eu achava que ia intensificar as minhas saídas pós‑laborais de mota, aconteceu o contrário: o eixo narrativo deste espaço — a minha Honda Vision 110 — ficou à espera, como quem aguarda o momento certo para voltar à estrada. Com a canícula instalada em Braga, entrar num carro tornou-se um suplício. Os interiores transformam-se em estufas químicas: misturas de plástico quente, perfumes de tablier e atmosferas que lembram fornos industriais. A mota, faça chuva ou faça calor infernal, continua a ser o meu refúgio. Em andamento, o calor deixa de ser um adversário e passa a ser apenas mais um elemento da paisagem. Braga vive Julho é de Jazz , mas vive-o a 40 graus. E eu, que já ouvi tantas vezes o preconceito de que motores com arrefecimento a ar “não aguentam o calor”, decidi testar o pequeno motor de 110cc numa prova de esforço urbano: dois pa...

O ar que se bebe nas entrelinhas

13 junho 2026
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De manhã, o ar já não se respira; pesa. O sol matinal, com uma pressa desmedida de agosto em pleno junho, instala-se nas ruas de Braga como um manto invisível e sufocante. Nestes dias de canícula, a cidade parece desacelerar, rendida ao torpor do calor, e a única trégua possível é aquela que se conquista em movimento. Montado na Honda Vision, o vento do andamento é um pequeno milagre diário. Não é propriamente fresco, mas corta a estagnação. Transforma o trajeto mais banal numa travessia contemplativa, um espaço de tempo suspenso onde os pensamentos ganham a liberdade que o asfalto quente tenta roubar. É a bordo desta scooter que tenho desenhado o mapa de um ano atípico. 2026 instalou-se em mim como uma primavera cultural tardia, mas avassaladora. Nunca li tanto. Nunca escrevi tanto. Os meus dias têm sido uma coreografia constante entre pontos de recolha de encomendas — que abastecem uma biblioteca pessoal agora reorganizada, com uma estante nova a estrear — e as salas de teatro e de ...

O encontro primitivo

4 junho 2026
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O anúncio surgiu no ecrã por mero acaso — um daqueles raros momentos em que o algoritmo serve uma utilidade fugaz. A notícia de que a livraria Centésima Página acolhia a apresentação do segundo volume da revista Primitiva ecoou em mim com a urgência de uma sirene de ataque aéreo. Não podia perder. O relógio, porém, impunha uma disciplina militar: trinta minutos exatos entre o largar das ferramentas na fábrica, a fuga para casa para um banho rápido que me devolvesse a dignidade pública, e a chegada ao centro de Braga. À saída do pavilhão, rodar o punho do acelerador foi o primeiro ato de libertação. O vento na cara funcionou como o prelúdio da água tépida que, minutos depois, me acordaria o corpo em casa. Um circuito de desinfeção física e mental. De novo na estrada, com o tempo suspenso e o céu de feição, mergulhei no pavé empedrado. A vibração irregular das rodas no chão da cidade tem essa virtude mecânica: agita o interior, peneira a alma, filtra o que é excesso. À minha frente, o...

Crónica de um jardim escondido

30 maio 2026
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Há um compasso de espera que só se encontra quando nos afastamos meia dezena de minutos do pulsar do asfalto urbano. Não é uma questão de distância geográfica; é uma mudança de rotação. Ela tem este dom invulgar: o de domesticar o verde, de saber exatamente onde a sombra deve deitar-se e que flor merece o protagonismo da estação. O seu trabalho a tempo parcial como jardineira é, para mim, o passaporte gratuito para um país bucólico que teima em resistir algures na periferia de Braga. Ela sabe, com a intuição fina de quem me conhece as manias, que o meu pretexto para ir ao seu encontro é apenas a moldura de algo maior. A viagem de ida constrói-se na antecipação. O vento morno de fim de tarde bate na viseira aberta e traz o cheiro a terra batida e a erva cortada. Quando desligo o motor da Vision, o silêncio não é vazio — é preenchido pelo cântico desordenado de pássaros que parecem genuinamente felizes e pelo sussurro das árvores velhas. Estaciono a scooter num pátio de lajes de cimento...

O homem que insuflava os braços

26 maio 2026
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A saída da livraria fazia-se naquela atmosfera suspensa e descomprometida que só as manhãs de sábado sabem oferecer. O ar trazia ainda o frescor limpo do início do dia e os livros acrescentavam um peso bom, reconfortante. Em frente a mim, a Vision permanecia estacionada, o seu vermelho vivo a ensaiar um diálogo cromático imprevisto com a fachada do Palácio do Raio. Dei dois passos, movi-a uns metros para o centro do cenário e decidi simplesmente demorar-me ali, a olhar. O Palácio do Raio é uma daquelas excentricidades que provam que Braga já teve mais tempo para a beleza. Erguido em meados do século XVIII, a mando do opulento comerciante João Duarte de Faria, carrega o traço genial de André Soares, o mestre que moldou o barroco e o rococó na cidade. Olhar para aquela fachada é ler uma partitura esculpida em granito: as janelas recortadas com um vigor quase teatral, as volutas que parecem mover-se sob o céu azul e, claro, o azul profundo dos azulejos oitocentistas que revestem a estrutu...

O ruído das ideias paradas

22 maio 2026
Há um silêncio muito particular que se instala entre quatro paredes quando a cidade continua a mover-se lá fora. Um silêncio que cheira a papel limpo, a febre ligeira e ao isolamento imposto por um veredicto clínico colhido à pressa na ponta de um cotonete gigante. Diagnóstico fechado: amigdalite viral. O corpo estaciona, mas a mente, essa, recusa-se a desligar a ignição. Da janela do quarto, o olhar viaja vertical até à garagem, contornando a distância para pousar na silhueta estática da Honda Vision. Não preciso de lhe tocar para saber como pulsa. Há um fenómeno de memória muscular que nos devolve o asfalto sem que precisemos de sair do sítio: fecho os olhos e oiço o ronco monocilindrico, sinto a aragem quente da tarde a cortar a monotonia do rosto, a moldar a rota pelas artérias de Braga. É uma viagem fantasma, mas perfeitamente real. A reclusão, contudo, tem as suas próprias leis de compensação. O tempo que a doença rouba à estrada é devolvido, com juros de serenidade, à mesa de tr...

A scooter no dia-a-dia japonês

20 maio 2026
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Há muitas formas de conhecer o Japão. Pode-se admirar os templos e os santuários, pode-se fitar os neons das grandes cidades, pode-se apreciar os comboios que chegam com a sua pontualidade sobre-humana. Mas, se quisermos perceber o país como ele realmente funciona – no seu ritmo mais humano – talvez seja melhor descer um pouco a escala. Sair dos locais turísticos. Descer dos arranha-céus e aproximarmo-nos do chão. Ou melhor: da estrada. Especialmente desde que me mudei da cidade para uma zona mais calma, longe da grande Tóquio ou de grandes centros urbanos, comecei a reparar na presença constante de pequenas scooters , como a Honda Dio¹. Discretas, mas absolutamente omnipresentes. Não chamam a atenção, não fazem questão de impressionar – e talvez por isso digam tanto sobre o Japão. No Japão, a scooter é, acima de tudo, uma ferramenta. Um objeto funcional, pensado para encaixar na vida quotidiana com o mínimo de fricção possível. Vê-se estas scooters estacionadas em frente a casas peq...