O sal nas muralhas e o vento de Silleiro

Cruzamos a fronteira e a PO-552 acolhe-nos sem pressas na Galiza. As pequenas povoações vão passando por nós quase em silêncio, desertas de movimento. Tomiño fica para trás, talvez como pretexto para um regresso futuro, quando o rio Minho pedir uma conversa mais longa. Abrandamos em A Guarda, mas o estacionamento difícil sopra-nos um aviso discreto: a viagem hoje não é para parar onde todos param, é para seguir a linha da costa.
A escolha de manter as rodas nesta fita de asfalto é uma teimosia poética. Haveria caminhos mais rápidos, diretos e funcionais, mas nenhum deles traria a frente atlântica a abrir-nos os pulmões. Do lado esquerdo, as ondas desfazem-se em espuma contra as escarpas rochosas; do lado direito, as encostas sobem em verde denso. O asfalto impecável exige moderação, mas o horizonte já tratara de nos abrandar o pulso. Conduzir aqui não é uma questão de velocidade, é um exercício de limpeza do olhar.
Em Oia, os campos recortados desenham uma paisagem agrícola e pacífica que milagrosamente escapou ao ruído do turismo massificado. A estrada convida a pausar, e o primeiro descanso faz-se no Miradouro do Thalasa, onde o vento carrega a memória dos marinheiros noruegueses perdidos nestas águas em 1949. Logo ao lado, na Praia dos Cristais de Silleiro, o mar fez o seu trabalho de paciência: devorou velhos detritos de vidro e devolveu-os à terra transformados em areia multicolorida e polida pelo tempo. Mais acima, no Monte Silleiro, o farol moderno vigia os bunkers abandonados da década de trinta, onde o silêncio agora ocupa os túneis que outrora guardavam a entrada da Ria de Vigo.
Quando chegamos a Baiona, o destino aceita o nosso ritmo. Deixamos a rota para caminhar no interior das muralhas do Castelo de Monterreal. Do alto da pedra, a vista abre-se sobre a vila e sobre o porto, apinhado de mastros de barcos de recreio a balançar suavemente. Lá em baixo, a vida corre devagar, entre um gelado na marginal e uma feirinha de artesanato num pequeno parque.
Dentro da fortaleza, procuro as ruínas da antiga casa de Pedro Madruga, o nobre galego que trocou as convenções pelas batalhas noturnas. O seu velho palacete, que mais tarde guardou pólvora e canhões, é hoje uma sombra devorada pela vegetação. A natureza vai cobrindo a chaminé e as pedras antigas com o seu manto verde, lembrando-nos que, no fim de todos os trajetos, a beleza reside naquilo que o tempo transforma e acolhe.