Onde o vento reza sozinho

A passagem pela Barragem do Lindoso deixa para trás vertiginosas escarpas que vão dar ao rio Lima. Naquele trajeto, apertei com força o volante e evitei olhar lá para baixo. Depois de atravessarmos o coroamento da barragem, iniciamos a curta subida até à N304-1, onde deslizamos entre árvores e ao largo da albufeira do Lindoso até ao abandonado posto fronteiriço que, do lado português, se apresenta num estilo arquitetónico típico do Estado Novo.
Aquela volumetria retangular simples, pragmática e austera, desenhada para cumprir funções oficiais, mantém uma escala contida e perfeitamente integrada na paisagem rural e montanhosa circundante. Ainda assim, ao vê-la, sente-se o peso de uma fronteira que entretanto deixou de existir. Pouco depois, entramos na Galiza. Estamos na OU-540 e após a passagem ao largo de Compostela encontramos muito bem sinalizada A Escusalla.
É a terceira vez que aqui venho e a segunda em que trago a Paula.
A cor do interior daquela casa em ruínas fascina-me. Não é apenas o cinzento do granito moldado pelo tempo, mas a forma como a luz filtra através da vegetação que a devora, criando tons de verde vibrante e sombra profunda que parecem ter vida própria. É nessa fusão entre pedra e floresta que começa o misticismo do lugar.
A documentação histórica diz-nos que a Casa da Escusalla foi mandada construir no século XVIII por don José Martínez y Parga, abade de Manín e homem de posses. O nome Escusalla deriva, provavelmente, de excusa (desculpa), referindo-se talvez a terras isentas de certos impostos. Mas o povo, esse contador de histórias insaciável, prefere a lenda.
E a lenda é pesada.
Fala-se que a casa estava ligada ao braço secular da Inquisição, servindo de refúgio ou prisão a um monge tenebroso, muitas vezes descrito como “o frade corcovado”. Este monge, dizem, atormentava as gentes da região e a sua figura fantasmagórica ainda hoje é vista, ou sentida, a deambular pelas ruínas, vigiando uma fronteira que, para ele, nunca deixou de existir. A Escusalla é, nas palavras da tradição oral, uma “casa encantada”, um local onde o tempo parou numa tragédia mal explicada.
É curioso como o abandono prolongado transforma o medo em património imaterial. A curiosidade nasce da pergunta inevitável: como é que um edifício com esta dimensão foi completamente esquecido? Talvez a verdadeira assombração da Escusalla não seja o frade, mas o abandono.

Pela primeira vez nas minhas visitas, encontrei o altar acompanhado por uma cruz em muito bom estado e por velas recentes. Uma presença silenciosa num espaço esquecido — alguém continua a vir aqui.
Deixar A Escusalla é como acordar de um sonho. A Paula e eu voltamos para o carro em silêncio, cada um processando o que viu e sentiu. Não são apenas ruínas de granito no Parque Natural Baixa Limia-Serra do Xurés; é um ponto de encontro entre a história documentada, as lendas que a comunidade criou para lidar com o medo do poder, e a força incontrolável da natureza que, lenta mas seguramente, apaga todos os vestígios da arrogância humana.
A Escusalla nunca é a mesma, porque nós próprios mudamos a cada visita. E o frade... o frade estará sempre à nossa espera, nas sombras que a hera ainda não conseguiu cobrir.