O tempo suspenso em Cossourado

Saímos cedo demais, embalados apenas pela pressa boa de antecipar a mesa do almoço. A estrada é um hábito antigo, mas os caminhos de sempre ganham outro alcance quando cedem ao desvio. Deixamos para trás a N303, curva a curva tantas vezes repetida, e pela primeira vez arriscamos a M1074 — essa pequena nesga de alcatrão que se oferece aos que subitamente decidem descobrir mais mundo.
Passamos pela longevidade discreta da Igreja de Cossourado. A fita de asfalto estreita-se, mas conserva-se íntegra e amável, contornando o monte até que a civilização moderna aceita a sua própria rendição. Ali onde o asfalto cede lugar à terra batida e aos sulcos do pó, a viatura descansa numa clareira improvável. O resto do caminho exige o corpo, a respiração cadenciada e o ritmo vagaroso dos passos. Sempre a subir, como convém aos lugares onde o sagrado e a memória decidiram refugiar-se no alto.
Surgem-nos, por fim, os limites de pedra. Um muro antigo, rústico, perfurado por uma passagem pedonal, delimita a fronteira entre os dias de hoje e o Povoado Fortificado de Cossourado, entregue a uma solidão profunda que fazia do monte um lugar só nosso. Um abandono sereno. Sem turistas, sem ruído, sem ninguém para quebrar a quietude do granito. A cividade era, naquele instante, um feudo privado que partilhávamos apenas com o horizonte. Classificada como Monumento Nacional e implantada numa vasta área de cerca de dez hectares, entre os limites dos concelhos de Paredes de Coura e Vila Nova de Cerveira, esta cividade da Idade do Ferro é um testemunho silencioso do génio castrejo que floresceu entre os séculos V e II a.C.
Contemplar este cimo é perceber a escolha estratégica dos nossos antepassados: o domínio soberano sobre a paisagem envolvente, a proteção natural das alturas e a imponência de um sistema defensivo outrora composto por três linhas de muralha pétrea. Espalhados pelo terreno sob a vegetação rasteira e a urze, adivinham-se os vestígios da vida quotidiana — desde pequenas habitações de planta circular, retangular e elíptica dispostas ao redor de um torreão central, aos fragmentos de cerâmica, mós de vaivém e artefactos que denunciam uma comunidade organizada na moagem, na olaria e na metalurgia do ferro.
No cimo da estação arqueológica, a história ganha carne através do restauro de duas estruturas habitacionais reconstruídas com perícia: paredes de alvenaria seca de granito e os caraterísticos telhados cónicos de colmo. Entrar na penumbra de uma destas cabanas é escutar o eco do vento que sopra nas serras do Alto Minho há mais de dois milénios, evocando a rotina de quem aqui viveu antes de o povoado ter sido abandonado no limiar do domínio romano.
A caminhada pela cividade, envolvida pelo ar puro da montanha e pela grandeza da história, faz cumprir a intenção do dia: apurar o espírito e despertar o apetite. Descemos o monte renovados, prontos para a recompensa terrena num dos restaurantes da vizinhança, onde a hospitalidade minhota se traduz na generosidade farta do prato e na cumplicidade da mesa.