O tempo suspenso em Cossourado

23 agosto 2026
Duas habitações castrejas da Idade do Ferro reconstruídas no Povoado Fortificado de Cossourado, sob um céu nublado, com paredes de alvenaria seca de granito e telhados cónicos de colmo.

Saímos cedo demais, embalados apenas pela pressa boa de antecipar a mesa do almoço. A estrada é um hábito antigo, mas os caminhos de sempre ganham outro alcance quando cedem ao desvio. Deixamos para trás a N303, curva a curva tantas vezes repetida, e pela primeira vez arriscamos a M1074 — essa pequena nesga de alcatrão que se oferece aos que subitamente decidem descobrir mais mundo.

Passamos pela longevidade discreta da Igreja de Cossourado. A fita de asfalto estreita-se, mas conserva-se íntegra e amável, contornando o monte até que a civilização moderna aceita a sua própria rendição. Ali onde o asfalto cede lugar à terra batida e aos sulcos do pó, a viatura descansa numa clareira improvável. O resto do caminho exige o corpo, a respiração cadenciada e o ritmo vagaroso dos passos. Sempre a subir, como convém aos lugares onde o sagrado e a memória decidiram refugiar-se no alto.

Surgem-nos, por fim, os limites de pedra. Um muro antigo, rústico, perfurado por uma passagem pedonal, delimita a fronteira entre os dias de hoje e o Povoado Fortificado de Cossourado, entregue a uma solidão profunda que fazia do monte um lugar só nosso. Um abandono sereno. Sem turistas, sem ruído, sem ninguém para quebrar a quietude do granito. A cividade era, naquele instante, um feudo privado que partilhávamos apenas com o horizonte. Classificada como Monumento Nacional e implantada numa vasta área de cerca de dez hectares, entre os limites dos concelhos de Paredes de Coura e Vila Nova de Cerveira, esta cividade da Idade do Ferro é um testemunho silencioso do génio castrejo que floresceu entre os séculos V e II a.C.

Contemplar este cimo é perceber a escolha estratégica dos nossos antepassados: o domínio soberano sobre a paisagem envolvente, a proteção natural das alturas e a imponência de um sistema defensivo outrora composto por três linhas de muralha pétrea. Espalhados pelo terreno sob a vegetação rasteira e a urze, adivinham-se os vestígios da vida quotidiana — desde pequenas habitações de planta circular, retangular e elíptica dispostas ao redor de um torreão central, aos fragmentos de cerâmica, mós de vaivém e artefactos que denunciam uma comunidade organizada na moagem, na olaria e na metalurgia do ferro.

No cimo da estação arqueológica, a história ganha carne através do restauro de duas estruturas habitacionais reconstruídas com perícia: paredes de alvenaria seca de granito e os caraterísticos telhados cónicos de colmo. Entrar na penumbra de uma destas cabanas é escutar o eco do vento que sopra nas serras do Alto Minho há mais de dois milénios, evocando a rotina de quem aqui viveu antes de o povoado ter sido abandonado no limiar do domínio romano.

A caminhada pela cividade, envolvida pelo ar puro da montanha e pela grandeza da história, faz cumprir a intenção do dia: apurar o espírito e despertar o apetite. Descemos o monte renovados, prontos para a recompensa terrena num dos restaurantes da vizinhança, onde a hospitalidade minhota se traduz na generosidade farta do prato e na cumplicidade da mesa.

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