O portão que a cidade esqueceu

25 julho 2026
Scooter vermelha estacionada em frente a um portão de ferro caído no chão, dando acesso às ruínas de uma antiga fábrica abandonada e coberta de vegetação sob um céu nublado em Braga.

Há um momento em que a cidade deixa de ser um mapa de destinos e se transforma num inventário de sobressaltos. Acontece quase sempre sem aviso, ao ritmo de um cilindro e de um semáforo que decide demorar-se no vermelho.

Subia a Avenida da Imaculada Conceição — essa artéria de Braga onde o trânsito flui com a urgência mecânica dos dias úteis — quando o olhar tropeçou num rasgo na paisagem. Ali, onde os carros passam alheados e o asfalto parece não ter memória, repousa uma carcaça industrial. Um esqueleto de betão e tijolo devorado pela hera, fustigado pelo tempo e esquecido pelos homens.

Desliguei o motor. O contraste era quase estético na sua brutalidade: o portão de ferro, desarnado das dobradiças, jazia no chão como se tivesse sido derrubado por uma força invisível. Ao centro, a minha scooter vermelha brilhava sob a luz de julho, intacta e viva, como um pequeno objeto de cena pousado num cenário pós-apocalíptico. Parecia até, à primeira vista, ter sido ela a abalroar a fronteira entre a cidade útil e o vazio.

É um contrassenso fascinante e amargo. No centro de uma cidade onde o preço do metro quadrado escala a montanha e a procura por habitação sufoca os dias de quem tenta encontrar um teto, hectares inteiros de memória permanecem suspensos no tempo. Servem apenas de refúgio às sombras, ao abandono e à vegetação silvestre que reconquista o chão que outrora pertenceu ao trabalho.

Gosto da ironia silenciosa destes lugares. São fissuras no quotidiano. A pouca distância das montras polidas e do ruído dos motores, a natureza vai fazendo a sua reabilitação urbana sem pedir licença a fundos imobiliários ou a planos diretores.

Voltei a ligar a ignição. O vermelho da mota cortou de novo o cinzento da poeira. A ruína ficou para trás, imóvel e solene no seu sono de betão, enquanto a vida continuava a acelerar pela avenida fora, indiferente aos portões que caem.

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