Sabor, pedra e planalto

30 julho 2026
Vista de uma rua estreita e sinuosa de calçada portuguesa na Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo, com casas de pedra granítica bem conservadas e decoradas com vasos de hortênsias e rosas.

A despedida do Douro em Barca d’Alva deu lugar a uma nova paisagem, mais seca, mais vasta e com a imponência que só o planalto interior oferece. A treze quilómetros de distância, numa jornada marcada por um ambiente quente de trovoada seca e nuvens esparsas, alcançamos Escalhão. A aldeia, que em tempos idos foi vila e sede de concelho, já se chamou Secalhão — um topónimo que não deixa margem para dúvidas sobre a aridez histórica desta região raiana.

Curiosa esta povoação, estendida num planalto onde o horizonte se perde de vista e onde, à nossa passagem, não se vislumbrou vivalma nas ruas silenciosas. Mas a surpresa maior esperava-nos a oito quilómetros de Figueira de Castelo Rodrigo, ainda nos limites do Escalhão. De repente, a estrada nacional N221 transfigura-se numa artéria com perfil de avenida. Separador central arborizado, duas faixas de rodagem em cada sentido e, espante-se, semáforos funcionais. Um rasgo de urbanismo bizarro e inesperado numa pequena povoação do extremo interior do país.

Prosseguindo pela N221, agora mais reta, deixamo-nos envolver pelo horizonte desafogado que nos entrega uma saborosa sensação de liberdade. Rapidamente chegamos a Figueira de Castelo Rodrigo, a sede do concelho que integra também Barca d’Alva e Escalhão. A passagem pela vila faz-se lenta, quase num deslize silencioso. Como não há trânsito, ninguém nos “empurra” para a frente; o ritmo é ditado pela curiosidade e pelo calor da tarde. Ao cruzar o jardim da vila, a presença sénior a habitar os bancos de jardim sob as sombras é a prova viva de que o tempo aqui corre numa cadência diferente.

Mas o verdadeiro destino estava numa elevação entre a vila e a mítica Serra da Marofa. No topo desse cabeço granítico, transpondo-se as muralhas, entramos em Castelo Rodrigo, classificada como Aldeia Histórica de Portugal em 1991. O casario, em muito bom estado de conservação, exibe a beleza solene que só a pedra recuperada sabe oferecer. A história palpita em cada esquina, desde os vestígios celtas e romanos até às marcas da Reconquista e da dinastia filipina, com a carcaça imponente do Palácio de Cristóvão de Moura a dominar a paisagem.

Foi ali, no coração da cidadela, que o instinto nos guiou até à Loja das Amêndoas – Sabores do Castelo. Castelo Rodrigo não é apenas um monumento de pedra; é também um guardião da tradição da raia. Nesta casa acolhedora, o cheiro a açúcar e canela conforta o espírito. As amêndoas, colhidas na região e transformadas pelas mãos sábias do casal que nos recebeu, são elevadas à categoria de arte.

A oferta é tentadora: amêndoas caramelizadas com açúcar mascavado, amêndoas envolvidas em chocolate branco, chocolate de leite, chocolate negro e até pó de cacau. Mas o segredo mais bem guardado é a amêndoa à moda de Castelo Rodrigo. Com uma receita única, a sua textura é surpreendente: uma capa de açúcar e canela crocante que estala na boca, libertando o sabor genuíno e intenso do fruto que as terras áridas do concelho tão bem produzem.

O casal proprietário, de uma simpatia e hospitalidade que fazem o tempo parar, partilha connosco o orgulho nestes produtos artesanais, resultado do saber-fazer transmitido de geração em geração. Com a despedida feita, o Castelo fica para trás. Na bagagem, para além das memórias visuais de um planalto sem fim e de uma cidadela de pedra, levamos o peso doce das amêndoas e o calor do licor. Uma prova irrefutável de que, nos confins do país, o sabor da história é também o sabor da terra.

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