Onde o vento faz a curva: o Douro Superior

Podia debruçar-me sobre o desconforto desta semana que abriu tórrida e sem tréguas, mas a memória preferiu resgatar outra canícula. Uma travessia antiga, desenhada na extremidade mais a este do Alto Douro Vinhateiro, onde o mapa se rasga e a paisagem ganha a aspereza solene da raia.
A entrada por Vila Nova de Foz Côa marcava o prelúdio de uma jornada em busca do Douro Superior. Sem a bolha climatizada do automóvel — esse filtro transparente entre o corpo e o mundo —, o dia teria sido uma prova física desmedida. Bastava encostar e abrir a porta para receber no rosto uma bofetada de ar sufocante, seco e denso, quase mineral. Cruzámos Foz Côa com a celeridade de quem anseia pela água e pelo vale, descendo até ao Pocinho para atravessar o rio sobre a espinha da sua barragem.
Esse breve flirt do IP2 com o Douro devolve-nos o curso de água sob uma perspectiva distinta, numa cadência mais lenta e grave. A Foz do Sabor revela-se logo ali à curva, desaguando memórias antigas. O Sabor traz-me o eco da infância em Bragança, cidade onde o rio também passa e onde tem o seu berço. Da nostalgia dessas geografias transmontanas, a curiosidade empurrou-nos para Torre de Moncorvo.
Ali, o alívio fez-se à sombra do edificado em pedra. O centro histórico acolheu-nos no seu recolho silencioso, dominado pela imponência da Basílica Menor de Nossa Senhora da Assunção. Edificada a partir de 1544 e classificada como Monumento Nacional em 1910, a sua estrutura quinhentista é um convite à penumbra e ao silêncio. No largo onde subsistem os vestígios do velho castelo, debrucei-me sobre as escavações arqueológicas que, no ventre das muralhas, desnudam camadas de outras eras.
Era hora de voltar a rasgar o calor. A N220 serpenteia ao lado de um fantasma de ferro: a antiga Linha do Sabor. Inaugurada em 1911 a partir do Pocinho e desativada em 1988, a ferrovia que outrora transportava o minério das jazidas de ferro é hoje uma ecopista pacífica. Ao longo do asfalto, somos surpreendidos por estações e apeadeiros devolutos que assistem, em silêncio, à passagem do tempo.
Entramos numa geografia onde o vento faz a curva — solitária, vasta, pausada. Ao passar pela carcaça da antiga estação ferroviária de Freixo de Espada à Cinta, flectimos para a N221 rumo à vila. Foi aí que uma cerveja cerrada pelo frio e um almoço sem pressas devolveram o alento. Estávamos nos confins do país, e a sensação de isolamento era um privilégio raro. A paisagem, moldada por verões escaldantes e por uma pluviosidade quase inexistente, exibe uma alma semiárida: vegetação rasteira, oliveiras centenárias e amendedeiras resilientes, todas moldadas para resistir à secura extrema.
O instinto rodoviário fez-nos desviar da rota principal para subir ao Miradouro do Penedo Durão. É lá no alto, em cima dos penhascos graníticos, que a vertigem e a fronteira se encontram. A vista rasga a garganta do Douro Internacional e descobre, no fundo do abismo plano, a Barragem de Saucelle e o território espanhol. As estradas sobem a encosta em lacetes perfeitos, entre a aridez da pedra e o espelho das águas presas.
Já na aproximação a Barca d’Alva, reencontrámos o Douro para o atravessar uma última vez. No cais, dois barcos de cruzeiro repousavam atracados, completamente vazios. O sossego absoluto revelava o sabor acre e poético do Portugal profundo — aquele onde o progresso passou e a ferrovia deixou de chegar. Os vestígios da linha abandonada pontuam a margem, e, num velho café, fotos a preto e branco expostas nas paredes mantêm viva a saudade do comboio que um dia fez pulsar a fronteira.