Andei pela linha, e vi um rio

Há cidades que não ocupam apenas um lugar no mapa; elas instalam-se no nosso corpo, correm-nos nas veias como sangue e pesam no peito como uma herança. Bragança é, para mim, uma dessas geografias. Não é apenas uma cidade; é a arquitetura da minha infância, um emaranhado de recordações gravadas em pedra e afeto.
O meu mapa pessoal de Bragança não segue as ruas oficiais. Ele desenha-se no Bairro Social da Coxa, no Bloco D, 1.º Esquerdo, onde o cheiro a refogado da minha avó se misturava com o eco do rés-do-chão, a Associação dos Paraquedistas do Nordeste. Foi ali que os meus avós, retornados de Angola com pressa e pouco mais que a roupa no corpo, ancoraram a vida. Bragança foi o poiso, o refúgio, a cura para o desenraizamento.
Para mim, Bragança era o destino de viagens intermináveis, partindo de Sintra com os meus pais. Recordo as estradas primitivas de outrora, que tornavam o trajeto uma prova de resistência, um calvário que só terminava com a chegada ao destino; parecia uma verdadeira expedição. Mas ao pisar aquele solo, o cansaço desaparecia. Ali, eu descobria uma liberdade que Sintra me vedava. Era um mundo distante, isolado no interior, mas imensamente livre.
As minhas memórias estão ligadas a lugares e gestos. Vejo os silos da extinta EPAC e os carris do velho comboio, onde as minhas primas fumavam às escondidas. Eu, cúmplice silencioso, recebia o suborno em gelados. Tenho gravada a imagem de mim próprio, já com a linha desativada, a fazer a travessia a pé, saltando de travessa em travessa. Lembro-me do vento, dos campos agrícolas infindáveis e do medo — misturado com audácia — ao atravessar a ponte ferroviária desativada sobre o rio Fervença, vendo a água correr entre os espaços das tábuas. “Andei pela linha, e vi um rio”, disse-lhes ao chegar a casa, simplificando uma aventura que me tinha preenchido a alma.
A minha avó, com os seus óculos pretos de lentes grossas, “fundo de garrafão”, era um farol de carinho constante. Dela, guardo a memória bizarra e terna de me confiar uma galinha viva num dia de feira, um saco de plástico que se rompeu e a cabeça da ave espreitando. Admirava a sua marquise repleta de plantas, um reflexo do amor que a minha mãe também dedica às dela. Com o meu pai, quando o ritmo abrandava, poisávamos no café Cidade Nova, onde o tédio era quebrado pela presença quase certa do meu tio Armindo, já tocado pelo álcool.
Com o passar dos anos, a cidade transformou-se. O nascimento da Zona Industrial das Cantarias e o aparecimento do primeiro hipermercado, o Domus, mudaram o perfil da região. O trajeto até lá era um passeio em que eu colava a cara ao vidro do carro para ver a cidade a expandir-se. Recordo as noites quentes no karaoke do Lagoa Azul com os meus primos e o encontro inesperado e ébrio com outro tio.
A Feira das Cantarinhas, com o seu artesanato, continua a ser uma âncora de nostalgia. Visitar Bragança é sempre um mergulho no passado. No entanto, sentia que a cidade me cobrava um dízimo emocional. Era um regresso a um tempo irrepetível, a pessoas que já não existem ou que mudaram. Eu queria vivê-la de maneira diferente, descomprometido com o passado, mas mantendo a intimidade com o espaço.
Desta vez, o regresso foi diferente. Voltei como quem regressa a um local que nos chama, mas com um propósito novo. Levei a Paula e três dos seus filhos para a Terra Fria Transmontana. Queria mostrar-lhes a minha Bragança, mas, acima de tudo, queria viver a Bragança que nunca vivi.
Curiosamente, eu nunca tinha visitado o castelo. Tudo mudou. Mas ele sempre esteve ali, e eu precisei de mudar para nele entrar. A sua torre de menagem, imponente e robusta na pedra dourada sob o céu azul, sempre foi uma paisagem de fundo, uma presença constante mas distante. Ao subir ao Monte de São Bartolomeu, apontei-lhes o castelo e a Serra da Nogueira. Decidi que era tempo. Percebi que era hora de entrar.
Atravessar aquelas muralhas foi uma revelação. Foi como cruzar a última fronteira que faltava para me libertar. Visitámos o museu militar na torre de menagem. Depois, com um tempo magnífico, assentámos arraiais na esplanada da Taberna do Javali e, mais tarde, n’O Celta Taverna. Ali, envoltos num ambiente tribal, com música condizente e boa bebida, senti o peso do passado aliviar.
O castelo, na sua solidez centenária, não é apenas história militar; é o símbolo dessa liberdade que finalmente conquistei. Bragança pede-me sempre um regresso. Agora sei que posso voltar não para me perder no passado, mas para me encontrar de novo, em cada pedra, em cada conversa, em cada passo por uma cidade que, finalmente, se tornou minha.