A cidade que se esconde atrás dos crivos

12 setembro 2026
Fachada da Casa dos Crivos, em Braga, com vários pisos revestidos por painéis de gelosias de madeira rendilhada, pintados de verde-escuro, sobre uma base de granito com grandes portas de madeira verde ao nível da rua.

A luz já vai intensa na Avenida Central, mas a sombra ainda é um luxo abundante. Estaciono a scooter sob a copa generosa de uma árvore e aproveito a faixa de sombra que se estende aos meus pés. Perco-me pelo centro histórico, ao longo de fachadas barrocas — passo pela imponência da Casa Rolão, cruzo a silhueta da Basílica dos Congregados e venho dar à vivacidade da Praça da República.

Caminho sem pressa, levado quase sem perceber pelos aromas que se evadem pelas portas dos velhos cafés, onde o perfume do grão torrado se cruza com a memória da madeira antiga. No fundo, sei ao que venho: um ritual simples de comprar café avulso e amendoins vindos de geografias distantes. Mas, antes de cumprir a incumbência, peço a mim próprio um desvio pela Rua de São Marcos.

Dobro a esquina d’A Brasileira e, poucos metros adiante, a cidade parece desacelerar. Ali surge a Casa dos Crivos, erguendo a sua fachada verde de gelosias rendilhadas. Olho para aquela geometria de madeira — o último sobressalto de um tempo em que Braga era uma cidade inteira escondida atrás de crivos de inspiração oriental. Há uma quietude poética naquelas treliças barrocas: foram feitas para ver sem ser visto, para deixar passar a aragem e filtrar a luz, guardando a privacidade dos corpos e o recato de outros séculos. Hoje, permanece ali como uma testemunha silenciosa do tempo, a lembrar-nos que nem tudo na cidade precisa de estar totalmente exposto ao olhar apressado de quem passa.

Inverto o caminho, apreciando o movimento compassado do centro sob a sombra protetora que desafia a promessa de um dia de canícula. De regresso à Avenida Central, exponho-me novamente ao sol denso e quente para atravessar em direção d’A Negrita.

Ainda nem cruzei a soleira da porta e o aroma a café torrado já se faz sentir no passeio, denso e acolhedor. Entro a transportar comigo essa paisagem olfativa e saio de lá com o meu pequeno tesouro vindo dos trópicos, colhido diretamente nas roças de São Tomé.

De volta à mota, a delicadeza ao pousar o saco no compartimento debaixo do banco é a mesma de quem guarda um metal precioso. Há um ouro invisível neste aroma gerado em São Tomé — pronto a libertar-se, mais logo, no silêncio da cozinha e no aconchego do palato.

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