No hay choco (e outras ilusões a norte)

Há viagens que começam muito antes da primeira curva e alimentam-se de pequenas mitologias de estrada. A nossa começou com o Fernando, ao volante, a ditar a cartografia gastronómica da Península Ibérica. Do sul guardava a memória do prato; do norte, a promessa da abundância. Mas a entrada na Galiza fez-se sob o signo da resistência: ao cruzarmos a fronteira em Tui, o desejo firme de comer chocos chocou de frente com o ceticismo do destino.
A catorze quilómetros da fronteira, a portagem d’O Porriño decidiu que a nossa passagem não seria tão simples. A Via Verde calou-se. Do outro lado do intercomunicador, uma voz feminina e intransigente recusava-se a ceder, enquanto o Fernando, virando-se para o habitáculo do carro entre o desespero e a comédia, decretava: “No hay choco. Eles não nos querem aqui.” O cartão de crédito resolveu a burocracia, mas o tom da jornada estava dado. A AP-9 galega fez-se ao som de uma risada corrida, embalada pela ideia absurda de sermos clandestinos num país que nos recusava a entrada e o almoço.
A Corunha acolheu-nos com essa fome cravada no estômago e o vento próprio de quem vive debruçado sobre o Atlântico. Na entrada da cidade, uma comissão de boas-vindas improvisada: uma jovem de bicicleta e saia curta desafiava a nortada com absoluta desinvolução. A cada rajada, a saia levantava-se, revelando as coxas e o branco da lingerie sem que a ciclista perdesse um segundo de pedalada ou um pingo de compostura. Desapareceu numa esquina para reaparecer, idêntica e triunfal, no quarteirão seguinte. Era a própria encarnação do norte: bela, crua, indiferente ao sopro do vento e ao espanto de quem chega.
Procurámos refúgio no ritmo espanhol, onde as horas da mesa se esticam. Junto ao Estádio Riazor, o Fernando avançou afoito para o interior de um restaurante. A resposta não podia ter sido mais poética: sim, podiam servir-nos, e sí, hay choco. O banquete, ainda que contido nas doses, serviu para apaziguar os ânimos e levar-nos ao calçadão da Praia de Riazor. Ali, o mar estendia-se num azul-turquesa quase imóvel, um contraste perfeito com a brisa persistente que parecia esculpir a arquitetura histórica e movimentada da cidade. Um gelado na mão, uma pausa junto à Fonte das Gaivotas, na Plaza Portugal, e o regresso ao asfalto.
O destino final era a periferia de Ferrol, em Xuvia, onde a modéstia do alojamento justificava o preço de ocasião. Ferrol revelou-se-nos num silêncio pesado de hora de siesta, entre fachadas degradadas e a imponência cinzenta da sua vocação naval. Na Avenida Esteiro, o aparato militar e os contornos da ria faziam-nos brincar com a paranoia do viajante, antecipando olhares desconfiados a cada esquina.
Mas o norte guarda sempre um prémio para quem insiste em contornar a baía. Subindo em direção ao Pieiro, a paisagem despiu-se de artifícios. Entre as ruínas de antigas baterias antiaéreas e bunkers esquecidos pelo tempo — cujos túneis parecem ainda guardar os ecos de outro século —, a costa finalmente abriu-se.
Lá em baixo, a Praia de Doniños repousava sob a luz da tarde, enquadrada pelo verde denso dos eucaliptos e pelo areal a perder de vista. Naquele topo, com o vento do norte a sacudir-nos as ideias e o oceano imenso a desenhar a linha do horizonte, ficou claro: não precisamos de ter tudo controlado na estrada. Entre a recusa da portagem, o choco conquistado e a imensidão do Atlântico, a viagem encontra sempre a sua própria liberdade.