Sentinelas de veludo

17 agosto 2026
Fotografia de uma janela de guilhotina em madeira pintada a verde numa fachada de casa rústica, onde seis gatos pequenos se acotovelam no peitoril a olhar para a rua.

A este de Bragança, a paisagem transforma-se assim que a cidade nos cai das costas. A Rua Conde de Ariães desfaz-se suavemente numa cintura agrícola, onde a terra lavrada e os verdes sazonais ditam o ritmo do olhar. Seguir pela M518 é iniciar uma travessia no tempo. Ao cruzamento, a placa saúda-nos sem artifícios: Freguesia de Castro de Avelãs.

Entramos pela Rua da Ribeira e curvamos à esquerda para atravessar uma ponte estreita, onde apenas passa um carro de cada vez, como se a própria aldeia exigisse uma vénia e uma pausa ritual antes da entrada. Ao cruzar a ribeira, a memória regressa em sobressalto. Reconheço estes contornos das correrias e gargalhadas com o meu primo Nelo; reconheço o acolhimento antigo de uma cozinha tipicamente transmontana, o aroma a fumo denso, o crepitar compassado da lenha no pote e o calor do lume no peito num dia rigoroso de inverno.

Mas hoje é verão. O ar vibra com a canícula e o propósito é outro: vim mostrar esta aldeia à Paula e aos meus enteados. Vim desvelar-lhes uma das minhas marcas de água, esse selo de infância que me amarra para sempre à terra bragançana.

No coração do povoado, permanece intocado o bebedouro de pedra onde o gado, ao regresso da pastagem, dessedenta a marcha lenta. Estacionamos junto ao Mosteiro de Castro de Avelãs, procuramos a sombra frondosa de uma árvore para aliviar o calor sufocante. Como os portões de ferro guardam o silêncio do recinto fechado, empoleiramo-nos no muro para espreitar a história.

Aponto para as ruínas arqueológicas que ladeiam o templo e conto-lhes a lenda que pertence à nossa mitologia familiar: a história de um dos meus tios que jurava, com olhar convicto, terem sido encontradas reluzentes moedas de ouro sob a terra durante as explorações e o restauro do complexo.

Olhar para aquele mosteiro é olhar para algo singular no património português. Aquela cabeceira de igreja, erguida pelos beneditinos no século XII, não fala a linguagem comum do granito aparelhado. É um exemplar raro do românico-mudéjar, construído em tijolo maciço, com arcadas cegas e geométricas que parecem transplantadas de Castela ou das rotas moçárabes. As escavações do século XXI trouxeram à luz as fundações dos velhos claustros e as pedras de um silêncio com quase mil anos — onde a história oficial e as moedas de ouro do meu tio coabitam em perfeita harmonia.

Retomamos o percurso, contornando a rua estreita. Por todo o lado, as casas tradicionais transmontanas exibem as cicatrizes do tempo e um avançado estado de abandono. São edifícios sábios na sua estrutura original: no piso inferior, a chamada “loja”, rústica e assente na pedra nua, onde antigamente se recolhiam os animais para que o seu calor corporal aquecesse os quartos do piso superior; no piso de cima, a habitação com as suas ombreiras de madeira e balcões de traça antiga. Hoje, muitas destas estruturas resistem a custo, mudas, mas cheias de dignidade.

Descemos da Rua do Mosteiro para reentrar na Rua de São Bento e paramos a meio do caminho. O contraste aqui é quase poético: à esquerda, ostenta-se uma casa apalaçada com brasão, de fachada limpa e irrepreensivelmente conservada; à direita, oposta a esta nobreza de pedra, ergue-se uma casa abandonada, de taipa e reboco gasto.

Foi diante desta última que travámos o passo, sob o feitiço de uma imagem inesquecível. Numa janela de guilhotina de caixilho verde-esperança, acotovelam-se inúmeros gatos a espreitar para a rua. Não cabem todos no peitoril estreito, pelo que vão trocando de lugar num rodízio paciente, com as patas dianteiras penduradas e os olhos semicerrados pela curiosidade. Soubemos depois que o ritual é diário: uma vizinha devota alimenta-os e eles ali postam-se à janela, sentinelas de veludo, aguardando a sua chegada.

Enquanto os cães cruzam a rua sem pressa e se adivinham pontuais obras de restauro noutras habitações, passamos uma última vez por um fontanário de água fresca.

Não sei se as voltas da vida me trarão de regresso a esta terra. Mas sei, com a certeza dos dias quentes e das memórias compridas, que a aldeia não morreu. Quanto muito, recolheu-se — e viverá para sempre dentro de mim.

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