A alma ancorada à pedra

Estamos em plena N203, deixando Ponte da Barca para trás, quando a brisa nos traz um travo inconfundível. Cheira a terra queimada. Passamos por uma região onde, faz um ano, morou o caos indomável dos incêndios. Ao aproximarmo-nos de Entre Ambos-os-Rios, o aroma torna-se denso, quase palpável, impossível de ignorar. Impressiona-me como o espaço e o tempo seguram este luto e conservam o seu cheiro. Junto à fita de asfalto, não são raros os esqueletos de troncos tombados pelas intempéries, monumentos de cinza que nos obrigam a abrandar o pensamento. Quanto tempo será necessário para que o drama aqui vivido se dissipe definitivamente do ar e devolva a pureza visual à paisagem?
Ainda assim, neste mar de ausência, há bolsas de resistência. Surge, silenciosa e firme, uma ponte medieval que sobrevive ao tempo sobre as águas do Rio Tamente, um segredo de pedra visível apenas a quem viaja com o olhar atento, saboreando a lentidão da condução na estrada nacional. Mesmo antes de Paradamonte, desviamos pela N304. A estrada atira-se numa descida íngreme e sinuosa que termina, lá no fundo, com uma curva em gancho a depositar-nos junto à antiga central elétrica do Lindoso. Inaugurada em 1922, orgulhou-se de ser a primeira grande central hidroelétrica de Portugal, até que o silêncio tomou conta das máquinas quando foi desativada, a 4 de dezembro de 2012.
A escassos metros a jusante desta central adormecida, repousa uma pequena ponte de alvenaria aparelhada. É uma estrutura datada de 1951, de uma elegância utilitária irrepreensível. Daqui, o olhar alcança a panorâmica completa de todo o ecossistema produtor da central elétrica, permitindo-nos transpor o rio Lima e dar início à longa subida até ao Soajo. É, ironicamente, a esta distância e em elevação que a escala real da devastação na Serra Amarela se revela em toda a sua crueza. No Soajo, o fogo também deixou a sua assinatura e consumiu alguma área, mas de forma mais circunscrita. O verde já espreita. A natureza, teimosa, começou o seu lento trabalho de regeneração.
Não é a nossa primeira passagem pelas ruas desta vila. Contudo, sentimos que esta região do Parque Nacional, ainda a sarar as feridas do verão passado, precisava desta pequena resposta — um regresso que demonstra que a vida continua, apoiando a economia de quem teima em não abandonar a serra. A Paula é exímia em orquestrar estas escolhas de refúgio, encontrando sempre o compasso certo para os nossos pequenos desvios da rotina de poucos dias.
Os espigueiros, aquele postal ilustrado omnipresente no Soajo, revelam logo ali algum rebuliço e movimento. Notamos a afluência mal entramos no parque de estacionamento, quase lotado e equipado com uma zona agora dedicada a quem viaja com a casa às costas nas autocaravanas. Mas a eira comunitária, coroada de pedra, mantém a sua vocação inata para o abrandamento e para a contemplação do horizonte montanhoso.
Estes 24 gigantes de granito foram erigidos sobre o afloramento rochoso para proteger o milho dos roedores e da humidade exterior, através de frinchas que garantem o arejamento perfeito. As cruzes que orgulhosamente exibem nos topos não são um mero detalhe estético, mas um pedido solene de proteção divina para as colheitas que garantiam o pão e a sobrevivência da comunidade durante os longos e duros meses de frio. Sabemos que esta não é a maior concentração destes guardiões de cereais — a coroa pertence ao vizinho Lindoso. Porém, como visitámos o Lindoso e o seu castelo mais recentemente, decidimos ancorar o corpo e a mente por cá.
E desta vez não estamos apenas de passagem; é a primeira vez que aqui pernoitamos. O nosso poiso é num antigo alojamento do clero, imaculadamente bem conservado. O edifício ostenta uma presença senhorial: uma estrutura de dois andares caiada de um branco vivo, onde grossas molduras de granito contornam geometricamente portas e janelas. No piso superior, duas varandas de ferro forjado espreitam a rua, enquanto, cá em baixo, uma vistosa e densa ramada de videiras abraça quase toda a extensão do andar térreo, oferecendo uma sombra generosa a quem chega. É uma morada clássica que, por estes dias, tem a ligeira ironia de albergar um casal ateu, perfeitamente rendido à atmosfera monástica que as velhas pedras preservam.
O interior não renega as suas raízes e a cozinha em particular não disfarça que os invernos, por estas montanhas, não são para almas finas.

Trata-se de um autêntico santuário do calor doméstico. As paredes rústicas abrigam uma enorme lareira construída do próprio granito estrutural da casa, agora modernizada com um pequeno recuperador de calor, mas mantendo intacta a memória com velhos potes de ferro e antiquadas pás de madeira a repousarem perto das cinzas. A rematar a cena, rústicos louceiros em madeira escura exibem com vaidade a típica cerâmica envernizada. Sente-se aqui o peso das velhas e tradicionais cozinhas minhotas, verdadeiros epicentros onde se ditava o tempo do mundo, cozinhando sem pressa e aquecendo o espírito.
E por falar no que sai da lareira, a gastronomia soajeira é um capítulo que justifica, por si só, qualquer viagem, glorificada sobretudo pela tenríssima carne da raça cachena. Uma iguaria proveniente do pequeno e ágil gado bovino, de cornos amplos em forma de lira, que vive e pastoreia num invulgar regime de liberdade pelas ruas e afloramentos rochosos da região. Este pastoreio solto traz um romantismo agrário, mas exige, no entanto, aos condutores e a quem circula a pé reflexos apurados e um cuidado redobrado, dado que estes simpáticos animais vão deixando os seus orgânicos “presentes” espalhados pelas ladeiras da povoação.
O Soajo ostenta o título oficial de vila, mas a sua pulsação e a sua alma são assumidamente as de uma aldeia. Com foral concedido pelo rei D. Manuel I em 1514, foi sede de concelho até 1852, e a longa História destas gentes sente-se no carácter intocável das suas fachadas.
Foi desta serra inóspita que saíram, durante séculos, os valentes cães sabujos que as gentes locais ofereciam anualmente aos reis de Portugal como tributo de proteção. Uma oferenda nobre de cinco cães que garantia ao povo do Soajo pesados privilégios, como a cobiçada isenção no pagamento de impostos à coroa. Povo com coluna direita e irreverência no sangue.

Esse traço de independência ficou, de resto, literalmente, gravado na pedra da praça central. O Pelourinho do Soajo, classificado como Monumento Nacional desde 1910, subverte as regras e foge à arquitetura punitiva tradicional. Na ausência dos típicos ferros, correntes ou argolas, culmina com uma geometria ímpar triangular que se assemelha a um chapéu de três bicos — há quem diga que exibe até uma face antropomórfica subtil entalhada na pedra. Sorridente, solitário e pacífico, mais parece um pequeno sorriso sarcástico, cravado no largo principal a olhar a passagem dos séculos.
O fogo andou aqui à volta, manchando vales e turvando, ainda hoje, o ar com o seu lamento de cinza. Mas, ao deambular por estas ruas de lajes seculares, ao sentir a textura orgânica dos espigueiros ou o sorriso franco de quem atende à mesa, percebo que não há chamas que consigam abafar a matriz deste lugar. A serra queima e lentamente cicatriza, mas a alma, essa, continua ancorada à pedra fria.