A geografia das pequenas fugas

9 agosto 2026
Pequena construção rústica de pedra com porta metálica e telhado em telha cerâmica Marselha no Miradouro de Santa Rita, sob céu encoberto em dia cinzento nas serras do Minho.

No sossego da casa de campo, o dia pedia silêncio quando a Paula me sobressaltou com um desejo simples: sair, mas sem ir para longe. Há quem precise de horas na estrada e de mapas dobrados em quatro para sentir que atravessou uma fronteira; ali a preferência pendia para a subtileza dos pequenos desvios. Eu já tinha na cabeça o itinerário para uma fuga de circunstância, daquelas em que o destino é apenas um pretexto para desacelerar o ritmo do mundo.

Fizemo-nos à N201, rolando suavemente no asfalto apenas pelo tempo estritamente necessário para virar o corpo e a atenção. Em Romarigães, a primeira paragem impôs-se quase por respeito literário junto à Casa Grande. Ergueram-na no século XVII em torno da Capela de Nossa Senhora do Amparo e, durante gerações, o solar de arquitetura nobre e rural foi o coração da vida local. Mas foi a escrita de Aquilino Ribeiro, em 1957, que a imortalizou no romance homónimo, transformando o granito, os musgos e os jardins da Quinta do Amparo num território de memória e literatura. Hoje, o conjunto restaurado devolve dignidade às ruínas de outrora, mantendo intacta essa aura de abrigo romântico no coração de Coura.

Retomámos o curso pela Estrada Municipal 1076, onde o caminho se estreita e nos acolhe sob uma cúpula verde de arvoredo densamente perfilado. Passámos por baixo do viaduto da autoestrada — um túnel momentâneo de betão que contrasta com a frescura da mata — para logo encontrar a inclinação acentuada de um asfalto impecável. A subida é uma transição suave entre concelhos: ao deixar o território de Paredes de Coura, entramos num extremo de Ponte de Lima, na freguesia da Cabração, onde se ergue o Miradouro de Santa Rita.

Árvore secular de copa larga e tronco inclinado junto a bancos de pedra no topo de um miradouro com vista panorâmica sobre o vale verdejante e montanhas ao fundo.

Chegar lá acima é como encontrar um segredo bem guardado. O miradouro é marcado pela presença silenciosa de uma árvore secular, de tronco retorcido e inclinado, cujos ramos parecem debruçar-se sobre o abismo, oferecendo uma sombra generosa aos bancos de pedra que a acompanham. É o convite perfeito para parar e absorver.

A 337 metros de altitude, o mundo abre-se numa amplitude serena. As montanhas sucedem-se em 360 graus, desenhando horizontes recortados sob um céu cinzento e denso que amansa a luz. Ao lado de uma pequena capela e de uma modesta edificação rústica em pedra, o olhar ganha descanso. Vêem-se os campos agrícolas minuciosamente recortados lá em baixo e, cruzando a paisagem, a fita cinzenta da autoestrada que segue em direção à Galiza.

Neste planalto ermo, o silêncio não é absoluto, mas sim cadenciado. A cada veículo que passa na via rápida, escuta-se um arrastamento leve e distante, como uma maré de asfalto a lembrar que a pressa do mundo continua lá em baixo, enquanto nós, por uns instantes, ficamos lá em cima a ver o tempo passar.

E, de repente, o mundo parece suficientemente longe.

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