O verde que exige silêncio

Há lugares que não anunciam a sua chegada com monumentos nem fronteiras. Anunciam-na com o ar.
Entrámos nas Astúrias sob um calor quase sufocante. O verão fazia-se sentir, e nada fazia prever mudança. Até que, a meio de uma conversa sem importância, os números no painel do automóvel começaram a cair a pique: vinte e nove. Vinte e quatro. Dezoito. Quinze. Doze graus. A temperatura desceu como se alguém tivesse aberto uma porta para outra estação do ano.
Foi o primeiro sinal de que esta terra tem regras próprias.
A estrada insinuava-se entre o Mar Cantábrico e as montanhas. À esquerda, o oceano revelava-se por entre as encostas; à direita, as paredes verdes erguiam-se sem pedir licença. O verde era de uma intensidade rara, lembrando-me os Açores, mas sem a suavidade das ilhas. Aqui, tudo parecia mais abrupto, mais vertical, mais indomável.
Deixei de participar na conversa dentro do carro. Há um momento em todas as viagens em que deixo de viajar com quem me acompanha e passo a viajar apenas com a paisagem. Observo em silêncio. Procuro linhas, sombras, rios, árvores isoladas, aldeias suspensas nas encostas. É uma forma de estar que nem sempre é compreendida, mas é assim que verdadeiramente conheço um lugar.
Em Unquera parámos junto à velha ponte que une as Astúrias à Cantábria. Não havia pressa naquele instante. A partir daí, o Rio Deva tornou-se uma presença constante. Ora surgia ao nosso lado, ora desaparecia entre desfiladeiros, apenas para voltar alguns quilómetros mais adiante.
Em Panes, caminhámos pela área recreativa de La Brañona até à Igreja de San Juan de Ciliergo. Havia apenas o rio, o calor da noite e uma tranquilidade difícil de encontrar nos destinos mais famosos. Da janela do quarto, via-se o Deva correr serenamente junto a um jardim impecavelmente cuidado. As águas refletiam as luzes dos candeeiros. O silêncio parecia fazer parte da própria paisagem.
Na manhã seguinte, porém, regressou a urgência.
A N-621 acompanha o Deva por um dos desfiladeiros mais impressionantes da região. Em La Hermida, um desvio levou-nos até Bejes. A estrada estreita, suspensa sobre o vale do Rio Corvera, parecia desenhada para obrigar o condutor a respeitar a montanha. As cabras moviam-se pelas paredes rochosas equilibradas em planos impossíveis. Ali compreende-se que o famoso queijo de Bejes nasce da geografia antes de nascer do leite.
Mas nem todos viajávamos ao mesmo ritmo.
Enquanto eu queria parar, caminhar e demorar-me, o casal que nos acompanhava pensava no destino seguinte. Em Potes, as ruas cheias de turistas pouco me disseram. Cruzámos a ponte sobre o Quiviesa e limitei-me a trocar um olhar com a Paula. Não precisámos de dizer nada. Ela percebeu que aquele não era o meu ritmo nem o que a paisagem pedia.
Fuente Dé apareceu envolta num verde quase improvável para quem associa as montanhas ao inverno e à neve. Era um lugar que pedia demora, mas seguimos caminho. Mais tarde, em Riaño, a paisagem mudou de tom. As montanhas tornaram-se mais secas, mais rochosas, menos acolhedoras. Continuei a olhar pela janela enquanto o Rio Esla desenhava curvas ao nosso lado.
Há sempre um rio que nos acompanha, mas já não havia o rio de paciência em mim.
Pouco antes de cruzarmos Cistierna, uma última paisagem prendeu-me o olhar. Havia apenas a sensação de que aquele pedaço de Espanha escondia histórias que nunca chegaríamos a conhecer. A estrada, porém, continuava a empurrar-nos em direção a Portugal.
Há viagens que terminam quando regressamos a casa. Outras terminam apenas quando percebemos que temos de voltar.
Os Picos da Europa ficaram para trás, mas não ficaram resolvidos. Um dia regressaremos. Sem horários, sem pressas, sem destinos para cumprir. Apenas com tempo suficiente para escutar aquilo que aquelas montanhas pareciam repetir desde o primeiro instante: há paisagens cuja maior riqueza não está no que mostram, mas no silêncio que exigem.