O portal do tempo fica ao lado da Junta

Dois dias seguidos a roçar os quarenta graus transformaram Braga na tostadeira do país. A cidade ardia em fogo lento, e a minha mota, sepultada debaixo de uma lona a estalar de quente, partilhava comigo a mesma imobilização resignada. Mas a manhã de hoje acordou diferente. A humidade rasgou o bafo de estufa, trouxe uma brisa fresca, um céu cinzento de veludo e aquela neblina matinal que limpa a vista e abre o mundo. Era o pretexto ideal.
Destapei a mota, senti o alívio mútuo do ar fresco e fizemo-nos à estrada. O trajeto pedia vagar. Aproveitei para atestar o depósito para os dias que virão, rodando a velocidade reduzida, numa estrada estranhamente serena, sem pressas nem espelhos retrovisores ocupados por carros a empurrar-nos. Passámos até em frente ao stand onde, um dia, esta scooter começou a sua história comigo. É curioso como a rotina nos cega: passamos mil vezes pelos mesmos caminhos, temos a história debaixo do nariz e nunca nos dá para ir no encalço do que nos rodeia.
O destino era a Mamoa de Lamas. Tão perto e, ainda assim, quase secreta. Na N309 ainda se descobre uma placa indicadora, mas uma vez entrados na localidade, o sinal desaparece. Não há uma única referência. É preciso o instinto para adivinhar que o monumento repousa, afinal, mesmo em frente à Junta de Freguesia de Lamas.
Encontrei um pequeno parque vedado por portões. Um deles estava aberto, mas sem qualquer painel explicativo ou bilheteira. Entrei com o pudor silenciador de quem invade o quintal alheio sem pedir licença. O parque eleva-se acima do nível dos telhados e do alcatrão. Subi as escadarias e os caminhos de pendente suave até que, no coração daquela plataforma verde suspensa sobre o quotidiano, me deparei com a Mamoa.
Fiquei ali, em absoluto silêncio, a assimilar o peso daquela pedra. Ali está uma câmara funerária do Neolítico, erguida há cerca de cinco mil anos, a testemunhar a vertigem dos primeiros homens que povoaram esta terra. E há uma ironia deliciosa na sua sobrevivência: depois de milénios adormecida sob a terra, esta relíquia não foi revelada por uma escavação paciente, mas pelo braço mecânico de uma escavadora em 1993, durante as obras de uma urbanização. O progresso moderno esteve prestes a destruí-la, mas acabou, por mero acaso, por lhe devolver a luz.
Ali, rodeado pela geometria circular da calçada e pelo sussurro dos pinheiros sob o céu cinzento, a antiguidade soprou uma brisa de humildade. Voltei a subir para a scooter e retomei o caminho de casa, embalado pelo paradoxo perfeito do caminho: por vezes, é preciso ir ao encontro de um monumento à morte para nos sentirmos, subitamente, mais vivos.