Geometrias do crepúsculo

Ir à horta ao final do dia tem a raridade das pequenas evasões urbanas. O sol recolhe-se no horizonte e a cidade muda de frequência, trocando a luz natural pelos focos amarelos da iluminação pública. Ali perto, o passadiço pedonal ferroviário sobre a linha desenha silhuetas metálicas contra a penumbra crescente.
Enquanto a Paula se baixava entre a verdura colhendo hortícolas frescos para o jantar, o tempo ao redor pareceu desacelerar. O rumor distante dos comboios e a rotina da colheita serviram apenas de pano de fundo para um detalhe suspenso no céu.
No horizonte lilás, a lua surgia plena, baixa e quente. Com um ligeiro ajustar de perspetiva, a esfera luminosa assentou com precisão cirúrgica sobre o fino cabo de média tensão que atravessa a paisagem, como uma nota musical escrita no crepúsculo. Um ponto brilhante equilibrado numa pauta invisível, a transformar o plano elétrico numa composição poética. A lua não precisa de eclipses ou eventos raros para reivindicar o seu lugar — basta-nos a disponibilidade de olhar e decidir que ela é, naquele preciso instante, o centro do mundo.