A manhã vinha descalça

4 setembro 2026
Cascata e lagoa de água esmeralda rodeada por rochas cobertas de musgo e árvores sob uma ponte antiga de pedra.

Pela N202, os pinheiros começam a desenhar a escolta antes mesmo de cruzarmos o limite do Parque Nacional da Peneda-Gerês. A escassos metros, uma elevação discreta à beira do asfalto ostenta um conjunto de pedras sobrepostas. À primeira vista, ao viajante apressado, poderia parecer apenas um arranjo decorativo. Mas para quem aprendeu a olhar com vagar, ali repousa a Anta do Mezio — um monumento megalítico com cerca de cinco mil anos, parte de um conjunto de dólmens e mamoas, testemunhos silenciosos de tempos imemoriais que a montanha guardou até aos nossos dias. A imagem fez-me regressar instantaneamente à memória recente da Mamoa de Lamas.

A breve paragem na Porta do Mezio revelou que a manhã ainda vinha descalça: chegámos demasiado cedo para as portas abertas. Sem pressas, deixámo-nos levar pela pista de terra batida que se prolonga pela esquerda. Passámos ao largo do desvio para o Baloiço do Mezio, sem tentações. Nunca fomos dados às modas dos baloiços suspensos — essa forma contemporânea, um tanto performativa, de rebatizar os velhos miradouros. Falando neles, logo a seguir ao cruzamento que serpenteia rumo às aldeias de Bostelinhos e Bouças Donas, surge o Miradouro da Porta do Sol, famoso pelas panorâmicas avermelhadas do fim do dia. Mas a nossa hora era matutina, sem sintonias com o astro‑rei que só mais tarde incendiaria o oeste. Seguimos ao ritmo cadenciado da montanha, no sussurro dos pneus sobre a terra e no verde que contorna o Parque de Campismo de Travanca.

Pouco à frente, paramos junto a um portal de armação em madeira que dá acesso a um passadiço. E pensar que estamos a escassos 72 quilómetros de Braga — uma hora de viagem que parece cruzar fronteiras invisíveis — para depois encontrar a serenidade das Lagoas de Travanca e das suas cascatas.

O passadiço guia-nos por um curto trajeto de cem metros desde o local onde deixámos o veículo. O impacto é imediato: uma composição luxuriante de verde denso, musgo entranhado nas rochas e águas num tom esmeralda hipnotizante. O silêncio só é interrompido pelo rumor contínuo da água a cair, numa paragem em que o tempo perdeu a métrica. Atravessar de volta aquela ombreira de madeira foi como acordar de um parêntesis poético e regressar ao pó suave do caminho, desenhando o regresso à Porta do Mezio.

Já com o complexo em pleno funcionamento, explorámos o parque biológico. Entre o carvalhal típico da Peneda, javalis, veados e gamoas recordam que a montanha não é apenas a paisagem que contemplamos: é também uma vida que se move, discreta, entre as árvores.

Exposição no museu etnográfico com carro de bois tradicional em madeira e verga entrançada, toros de madeira e serras antigas.

O museu etnográfico abriu-nos uma janela para o mundo rural de outrora. Entre carros de bois em verga entrançada, arados de ferro, jugos esculpidos em madeira e os trajes tradicionais das lavradeiras, o espaço funciona como um precioso testemunho da memória sociocultural do Minho. Utensílios agrícolas e peças do quotidiano contam a história das mãos que moldaram esta montanha, no duro — quase se adivinha o peso das manhãs frias nos cabos de madeira, num tempo em que o movimento se fazia à medida dos passos.

Deixámos o Mezio para trás quando o sol já começava a ganhar corpo no céu. A manhã, que nos tinha recebido descalça e em silêncio, vestia-se agora de luz e movimento. Ligámos o motor, apontámos o rumo e regressámos à estrada — com o poiar das pedras antigas na memória e a certeza de que a montanha nos ensina, sempre, a desacelerar.

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