Os sinais de fumo do outono

O calendário pode teimar a sua habitual burocracia, mas a verdade é que uma estação não se decreta por alinhamento astronómico. O outono sente-se. E, acima de tudo, o outono é uma questão de iluminação.
Com o trânsito a abrandar o ritmo da cidade, o céu decidiu finalmente assumir a sua paleta de época. Por cima dos telhados e das silhuetas teimosamente escuras das árvores, as nuvens espessas incendiaram-se num laranja vibrante. É a famosa dispersão de Rayleigh em todo o seu esplendor prático: ao aproximar-se do horizonte, a luz do Sol atravessa uma camada mais espessa da atmosfera, onde os comprimentos de onda mais curtos são mais intensamente dispersos. O azul perde-se pelo caminho e os tons quentes acabam por dominar o céu, pintando o teto do mundo.
Mas a física, por muito fascinante que seja, raramente nos aquece a alma da mesma forma que a poesia das ruas.
Parei para observar. Aquele fogo brando no crepúsculo parecia feito para a nostalgia que tardava em assentar no asfalto. Se as folhas ainda não secaram para atapetar os passeios em tons de terra e caruma, o firmamento tratou de fazer as honras da casa, cobrindo o olhar com um manto quente e reconfortante. O dia fecha o seu ciclo de forma suave, banhado numa luz tépida que faz tudo parecer saído de uma velha revista impressa.
As temperaturas ainda podem não exigir o forro interior do blusão, mas a luz já não engana. O arrefecimento dita as suas próprias pausas e este entardecer acolhedor foi a prova visual que me faltava. O recolhimento aproxima-se com a lentidão dos dias bons. O outono mandou, finalmente, os seus sinais de fumo.
Há quem espere o ano inteiro pelo verão. Eu espero pelo outono.