O aviso de receção

2 outubro 2026
Arco-íris luminoso atravessa um céu carregado de nuvens sobre uma rua residencial, enquadrado por casas, telhados e um candeeiro ao final da tarde.

O calendário continua a insistir que o outono já chegou. Desde o equinócio que os dias lhe pertencem por decreto, como se as estações obedecessem a uma pontualidade horária. Mas o outono não se apresenta assim. Não toca à campainha nem mostra documentos à entrada. Aproxima-se devagar, deixando vestígios.

Saí de casa para uma curta deslocação de carro. Mal coloquei os pés no empedrado da rua, antes mesmo de ter entrado no veículo, fui obrigado a parar.

Ao fundo da rua, suspenso entre a chuva que se afastava e a luz que resistia, estava um arco-íris.

Durante alguns segundos fiquei simplesmente a olhar. Há fenómenos que interrompem o movimento antes mesmo de ele começar. A fotografia registou o momento, mas não conseguiu guardar a intensidade das cores. Talvez nenhuma consiga. Há sempre uma parte do arco-íris que pertence apenas ao instante em que é visto.

Recordei-me então de uma dessas curiosidades meteorológicas que vou acumulando e esquecendo. Dizem que, para um arco-íris aparecer, o Sol tem de descer suficientemente no céu. Durante grande parte do verão sobe demasiado alto para permitir aquele arco luminoso. Só quando a sua trajetória começa a baixar e os aguaceiros dispersos regressam ao quotidiano é que estes encontros se tornam mais prováveis.

A ciência oferece explicações. O olhar procura significados.

Talvez por isso tenha ficado algum tempo a observá-lo antes de seguir caminho. Não me parecia estar perante a chegada do outono, mas sim perante um anúncio da sua aproximação. Como aqueles comboios que ainda não entraram na estação, mas cujo ruído já se ouve ao longe.

Conduzi depois em direção à cidade. O arco-íris acompanhou-me durante parte do percurso, mudando de lugar a cada curva e a cada quilómetro. A certa altura pareceu descer sobre o topo da Santa Marta, envolvendo antenas, repetidores e toda aquela floresta metálica encarregada de transportar sinais invisíveis.

Achei a coincidência apropriada.

Também aquele arco-íris era apenas um sinal.

Não uma presença, mas uma transmissão.

Uma mensagem luminosa enviada pela atmosfera para informar que alguma coisa está finalmente a mudar.

Ainda não senti o ar frio que obriga a procurar um casaco. Ainda não encontrei as alamedas cobertas de folhas estaladiças que procuro há semanas. Ainda não chegou aquela luz dourada e breve que transforma os finais de tarde em despedidas demoradas.

Mas o aviso foi recebido.

E talvez isso baste para já.

O outono continua sem se revelar por completo. Anda apenas por perto, discreto, a testar a cobertura da rede antes de entrar definitivamente em cena.

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