A medida justa do caminho

Há um compromisso silencioso que se faz com as manhãs de canícula antes do alcatrão ceder à vertigem do calor. Rumo pela primeira vez em duas rodas a Vila Nova de Famalicão, embalado por essa brisa ainda fresca que é o único luxo honesto num dia de verão. A estrada corre fluida até Gavião, onde a pressa do mundo tropeça num episódio banal e belo: um cão desorientado no meio da via, às voltas entre a impaciência dos apressados e a urgência de encontrar a saída. Travo com cuidado. Há na falta de paciência urbana uma espécie de ruído cego, mas ali, no tempo que demorou a garantir-lhe a passagem segura, o dia fez a sua primeira pausa forçada.
Já na malha urbana de Famalicão, surpreende-me a serenidade com que o trânsito flui. Sem a habitual agressividade das buzinas nos dias quentes, o movimento desata-se numa harmonia quase natural. O pretexto desta deslocação é profundamente analógico: entregar ao João-Afonso o seu exemplar da Pendura, essa aventura editorial onde cravo no papel o engenho e a voz dos autores que aceitam o convite para habitar a página impressa. Há uma solenidade bonita no gesto de entregar um livro, vindo de uma viagem em duas rodas.
Antes do regresso, procuro a desaceleração no Parque da Devesa. Contornar a lagoa pela metade sul do parque é como mudar a frequência do dia. A sombra densa das árvores guarda o chão pontilhado de bolotas, enquanto os bancos de madeira oferecem um refúgio suspenso do ritmo da cidade. Sentar ali a ver a água e o movimento sereno das pessoas devolve-me aquele equilíbrio que só a natureza urbana sabe proporcionar.
De regresso à N14 rumo a Braga, o Vale de São Cosme abre-se em altitude sob um céu limpo. A estes 60 ou 70 quilómetros por hora, o vento que bate no corpo não tem a violência do impulso, mas a medida justa do alívio. No fundo, é sempre disso que se trata: o prazer de andar, parar, olhar… e seguir caminho.