A espera inquieta pelo outono

26 setembro 2026
Lago do Parque de São João da Ponte com água esverdeada e reflexos de árvores altas nas margens. Algumas copas começam a ganhar tons amarelados, sob um céu nublado.

O calendário teima em garantir que ele já chegou. Os primeiros dióspiros e nozes colhidos pela Paula aparecem na mesa da cozinha como provas materiais de um equinócio oficial. Mas, para mim, o outono não é uma questão de data ou de pomar: é um estado de espírito que só se confirma quando a pele o sente, quando a humidade sobe e a luz perde aquele peso sufocante do verão.

Nessa ânsia de tentar encontrar a estação mais aconchegante e contemplativa do ano, fiz-me à estrada.

O caminho até ao Parque de São João da Ponte revelou os sinais de um tempo desequilibrado. Quando os dióspiros se antecipam e os tomates continuam a vingar na horta em pleno final de setembro, percebe-se que algo no ritmo do mundo está alterado. Tirando um ou outro tom acobreado numa copa mais apressada, nada na paisagem convidava ao recolhimento.

Tinha a esperança de encontrar o outono no parque, nem que fosse numa versão tímida e reservada. Um verdadeiro outono enche as alamedas de um tapete estaladiço de folhas; ali, no entanto, a folhagem seca surgia apenas polvilhada timidamente debaixo das árvores, como se recusasse a cobrir a terra. Recordei um provérbio japonês que diz que “a árvore que se recusa a perder folhas também se recusa a viver novas estações”. No Japão, o momijigari — a contemplação ritual da mudança das folhas — não é um exercício de melancolia, mas uma celebração da impermanência e da sabedoria do tempo.

Procurando essa tranquilidade, encaminhei-me até ao coreto. Ia para tirar uma fotografia, mas a imagem desfez-se antes do disparo. O espaço do coreto estava habitado pelas sombras e pelos pertences de quem não tem teto, envolto num forte odor a urina. Foi o primeiro sinal de que a contemplação poética estava a tropeçar na crua invisibilidade urbana.

Redirecionei os passos até ao lago. A água, tingida de um verde denso e estagnado, denunciava um excesso de nutrientes e a falta de saúde daquele ecossistema. Não há peixe que resista ali; apenas os patos cortavam a superfície, indiferentes à degradação à sua volta. Ao redor do lago, a azáfama dos convívios e a concentração de pessoas contrastavam com a solidão interior que eu procurava.

A rutura definitiva com o lugar veio sob a forma de ruído. O silêncio que faltava foi rasgado por duas motas a acelerar brutalmente nas imediações, fazendo ecoar rateres agressivos pela vegetação. As máquinas de grande cilindrada — que minutos antes vira estacionadas junto a um restaurante japonês perto do parque — transformaram o ambiente num palco de ruído gratuito. Talvez a conta do almoço os tivesse enervado, ou talvez a gasolina continue demasiado barata para ser queimada sem sentido.

O estrondo dos rateres foi tão forte que o sensor da minha scooter disparou, fazendo soar o alerta de movimento no telemóvel. Aquela notificação pareceu-me um chamamento direto da minha companheira de duas rodas, a dizer-me que aquele não era o nosso lugar e que era tempo de partir. Foi o sinal definitivo de que o meu tempo ali tinha terminado. Retirei-me sem olhar para trás, devolvendo o parque ao seu ritmo estridulado.

Não foi hoje que o outono chegou. Fica para o próximo trajeto, para quando o ar arrefecer de verdade e o tempo decidir abrandar.

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