O comboio das 22h18

24 outubro 2026

O anúncio de uma massa de ar polar surgira com a solenidade habitual das previsões meteorológicas. Falava-se de uma descida acentuada das temperaturas, de uma frente fria a aproximar-se e de chuva durante a noite.

Já deitado, oiço os aguaceiros a começarem a cair. O som da chuva a bater nos caleiros corria ao longo da rua como uma conversa entre telhados. Não era uma tempestade, apenas uma chuva persistente, daquelas que parece determinada a ficar até concluir o trabalho.

Foi então que ouvi o comboio.

Ao longe, chegou primeiro a buzina. Depois outra. A passagem junto ao apeadeiro da Aveleda anuncia-se sempre antes de se ver. Há meses que o oiço à mesma hora, por volta das 22h18, como um relógio ferroviário de pulso. Ele não consta na escala da CP, pelo que deverá circular vazio, recolhendo-se para algum local onde possa passar a noite.

Nessa noite, porém, soou diferente.

Naturalmente, o comboio era o mesmo. A linha era a mesma. Provavelmente até o maquinista seria o mesmo. Mas a imaginação tem destas liberdades e, enquanto a chuva continuava a bater lá fora, fiquei com a sensação de que aquele comboio trazia mais qualquer coisa consigo.

Trouxe o outono.

Na manhã seguinte, o nevoeiro confirmou a suspeita.

Acordei e encontrei um mundo reduzido a poucos metros de distância. As casas mais afastadas tinham desaparecido. Os campos eram apenas uma sugestão. O horizonte tinha sido apagado durante a noite por uma borracha húmida e paciente.

A ditadura do relógio não me permitiu fotografar nada. Havia um trabalho à espera e minutos contados para o alcançar. Ainda assim, algumas imagens ficaram guardadas na memória, talvez porque certos momentos sabem defender-se sozinhos do esquecimento.

No percurso de scooter, as árvores surgiam como manchas escuras suspensas na névoa. Não se distinguiam espécies, folhas ou ramos. Apenas silhuetas. Sombras verticais desenhadas a carvão sobre uma página branca.

Por instantes, pareciam menos árvores. Eram apenas presenças.

Mais adiante, junto à zona industrial, aconteceu algo ainda mais curioso.

Habitualmente, aqueles pavilhões apresentam-se sem cerimónias. Chapas metálicas, portões largos, fachadas funcionais e geometrias rígidas. São edifícios construídos para trabalhar, não para seduzir.

Mas o nevoeiro resolveu ser generoso.

Suavizara-lhes as arestas. Algumas fachadas emergiam apenas pela metade, enquanto outras pareciam flutuar acima do solo. O que habitualmente era duro tornou-se discreto. O que normalmente era agressivo tornou-se quase elegante.

Por algumas horas, a bruma ofereceu à paisagem industrial aquilo que nenhum arquiteto conseguiria fazer: ofereceu mistério a um lugar que não foi construído para o ter.

Talvez seja essa uma das qualidades mais interessantes do outono. Não transforma verdadeiramente os lugares. As árvores continuam onde estavam. Os edifícios não mudam de sítio. As estradas permanecem iguais.

Muda apenas a luz. Muda o ar. Muda a distância a que conseguimos ver as coisas.

E, de repente, o quotidiano ganha uma profundidade inesperada.

Quando o nevoeiro acabou por levantar e as fachadas regressaram à sua nitidez habitual, a zona industrial voltou a ser apenas uma zona industrial. Mas durante aqueles breves quilómetros da manhã, enquanto seguia para o trabalho, tive a sensação de estar a atravessar um lugar diferente.

Ou talvez fosse exatamente o mesmo lugar.

Apenas visto através dos olhos de uma estação que acabara de chegar no comboio das 22h18.

PÁGINAS MAIS FOLHEADAS

A cidade que ainda cabe no olhar

A espera inquieta pelo outono

Retirar o olhar do ecrã e regressar ao papel