O crime perfeito de não fazer nada

17 julho 2026

A manhã começou com uma carta de desculpas que era, na verdade, um sintoma do nosso tempo. Enfiado entre a crosta estaladiça dos pães que repousavam à porta, o bilhete do padeiro carregava uma delicadeza quase trágica: pedia perdão por ir de férias, lamentando antecipadamente o incómodo do seu silêncio. Sorri com uma ponta de ironia. Em que momento da história transformámos o direito ao descanso numa infração social? Que engrenagem invisível nos convenceu de que o ócio exige uma justificação por escrito?

A urgência do padeiro em desculpar-se pelo próprio descanso foi o gatilho. Ali mesmo, antes do primeiro café fazer o seu trabalho, encomendei a Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson. Um manifesto antigo para converter os obcecados pela produtividade e os gurus do lucro perpétuo. Afinal, eu próprio tinha tirado o dia de férias com um propósito firme e deliberado: abrandar.

Montei-me na scooter com o espírito de quem executa um plano de fuga. Ao deslizar em direção ao centro de Braga, o vento fresco da manhã contra o rosto trouxe o despertar que a cafeína ainda ensaiava. Há uma beleza melancólica e pacífica na cidade num dia de expediente. O trânsito fluía sem a histeria mecânica dos sábados; a envolvência urbana parecia mais limpa, quase cúmplice. Estacionei à sombra, recolhi o capacete e decidi que o resto do caminho seria feito ao ritmo mais antigo do mundo: a pé.

Na mala, levava um punhado de pequenos fantasmas do passado — os antigos porta-chaves de A Minha Honda. Como quem distribui pistas de um mistério literário ou deixa migalhas de pão num bosque de betão, fui-os libertando. Um ficou no banco de uma paragem de autocarro, outro na frescura de um canteiro, um terceiro junto à entrada de uma livraria. Pequenos marcos de uma rota que agora corre sob o nome de Entre Curvas, mas que mantém o mesmo coração de autor.

Fotografia em plano médio de um cavalete de madeira posicionado num espaço público exterior e sombreado. O cavalete exibe quatro reproduções de pinturas abstratas e coloridas da artista Sonia Delaunay, caracterizadas por formas geométricas e círculos concêntricos. Na base do cavalete, uma folha branca horizontal apresenta o nome Sonia Delaunay escrito à mão em caligrafia cursiva preta. Ao fundo, vislumbra-se um jardim urbano com árvores, esplanadas de café vazias com mesas de madeira e luz solar intensa.

Foi em pleno jardim da Avenida Central que o mundo parou de forma geométrica. Entre o verde das árvores e o cinzento do passeio, esbarrei com um cavalete que sustentava a geometria vibrante, abstrata e hipnótica de Sonia Delaunay. Os círculos concêntricos e as cores quentes, recortados contra a luz crua da manhã, detiveram-me. Estaquei. Há dias em que a arte não é um adereço; é oxigénio puro injetado diretamente na nossa sanidade mental. Uma pausa visual na coreografia geométrica do quotidiano.

Retomado o passo, atravessei a Praça da República e o Largo de São Francisco. Desci a Rua dos Capelistas, cortei pela Dr. Justino Cruz e deixei-me ir pela corrente humana da Rua do Souto. À minha volta, a cidade exibia os seus arquétipos clássicos: mulheres de passo apressado com sacos de compras nos braços e homens de cabelo branco, reunidos em tertúlias imortais à porta dos cafés, resolvendo o mundo entre pausas de silêncio. O único anacronismo eram as carrinhas das transportadoras, que rasgavam as ruas pedonais na sua pressa moderna, lembrando-me do mundo de onde eu tinha acabado de saltar.

Terminei o circuito no jardim da Senhora-a-Branca, onde depositei os dois últimos porta-chaves, como quem encerra um capítulo.

À vinda para casa, com o termómetro a registar a subida da temperatura, a viagem de regresso foi um bálsamo absoluto. O vento, a moldar-se novamente aos contornos do corpo em movimento, trouxe de volta aquela velha e familiar vertigem. A liberdade em duas rodas não precisa de pedir desculpa a ninguém. O padeiro que me perdoe, mas hoje o dia foi um crime perfeito contra a pressa.

PÁGINAS MAIS FOLHEADAS

O ar que se bebe nas entrelinhas

40 graus à sombra do jazz

O ritmo invisível do tempo contado